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O maravilhoso mundo das Peñas Flamencas

Atualizado: há 6 dias



Na última tertúlia, a nossa convidada e também associada do El Club del Duende, Deborah Nefussi, falou sobre o universo fascinante das peñas. Foi ótimo escutar o relato dela sobre o seu “enamoramento” por essas associações, a partir das viagens que fez para participar do Festival Flamenco de Jerez de La Frontera. Me deixei levar pela narração dela e busquei na memória as minhas experiências nas peñas espanholas.


Meu primeiro contato foi totalmente por acaso: o ano era 1995 e eu iniciava as viagens de estudos à Espanha. Estávamos, minha colega e eu, na fila aguardando um recital de cante flamenco com o grande José Menesse. Obviamente, na época, nós não tínhamos a menor ideia de quem era aquele cantaor, mas como tudo naquela viagem, queríamos aproveitar e experimentar tudo o que contivesse a palavra flamenco na frente rsrsrs. Algumas vezes, acertávamos, outras não. Felizmente, naquela noite, foi um dos muitos acertos! O show foi inesquecível e, como estava contando para vocês, enquanto esperávamos para entrar no Teatro (Calderón de Madri), recebi um folheto com a publicidade de um show que haveria nos próximos dias na Peña Flamenca El Chaquetón.


Não sabíamos exatamente o que era uma peña, mas como disse antes, tudo o que dizia “flamenco” na primeira frase… Chegando no endereço indicado -Calle Canárias, 39- a pequena sala no porão de um edifício estava repleta de “aficionaos”, mas felizmente um casal acenou para nós, avisando que na mesa ainda haviam dois lugares. Aliás, a “pareja” em questão, são meus amigos até hoje, quase 30 anos após aquela noite: meus queridos Rocío e Porfírio. Bem, voltando à Peña, a apresentação começou às 23h30 -horário super flamenco, por sinal- e a atração da noite era Manuel Soto Sordera, outro grande cantaor! Nesta noite, já me dei conta da importância que o cante tem para os amantes do flamenco. O tom respeitoso do silêncio guardado durante o recital e os jaleos feitos em resposta à interpretação dos artistas, indicavam que, para adentrar ao paraíso flamenco, a primeira porta a ser aberta era a daquela incrível forma de cantar!


A segunda vez que visitei uma peña, coincidiu com a minha segunda viagem à Espanha, mais precisamente, em janeiro de 1999 e foi num lugar mágico: Granada! Desta vez, estava com a minha irmã de coração, a “sorellísima” Denise Baptista, que os sócios do El Club del Duende conhecem tão bem! Nós duas fomos ao berço do poeta García Lorca visitar os amigos Mariángeles e Jesús, que ela conhecia de longa data. Em uma das noites que estávamos fazendo um passeio pelo bairro Albaicín, nossos amigos nos levaram para conhecer a famosa Peña La Platería, uma das mais antigas do país. Na chegada, a pessoa que estava na porta avisou que se tratava de uma noite fechada para sócios, porém eu não me contive e contei minha história triste: “sou brasileira e estudante de flamenco. Esta é a minha primeira vez que venho a Granada e minha última oportunidade de visitar a Peña!”. Felizmente, estávamos na Andaluzia e o povo é muito amável. Logo ao entrar, tivemos a sensação do que é entrar em um verdadeiro templo da Arte Flamenca: o prédio antigo com pé direito alto e muitos quadros retratando grandes artistas do passado. Assim como na Peña El Chaquetón de Madri, o silêncio e o respeito pelo recital que estava acontecendo era notável. Infelizmente, eu estava tão embriagada daquele embrujo granadino que não lembro do cantaor e do guitarrista que estavam atuando naquela noite linda.


A minha terceira experiência, se deu somente 10 anos mais tarde, em 2009, quando eu morava na capital andaluza e estudava no programa de Doutorado em Flamenco da Universidad de Sevilla. Um dos meus professores, Don Antonio Mora, sócio e grande aficionao flamenco, me avisou que haveria uma función na Peña Torres Macarena e o bailaor principal da noite seria José Galván. Na época, eu já havia escolhido o tema da minha pesquisa, o baile de Israel Galván, e, por este motivo, o professor disse que seria interessante conhecer o pai e primeiro maestro de baile de Israel para conhecer um pouco de “donde había salío Israel”. Convidei, então, meu querido colega e grande amigo Ernesto Novales para ir comigo à Torres Macarena.


No caminho, Ernesto, que era um jovem jornalista e altamente culto, foi contando para mim sobre a importância da Peña, sua fundação nos anos 70, os grandes intérpretes que haviam passado por lá, e toda a sua história. Toda aquela contextualização fez com que a minha expectativa por conhecer o lugar fosse aumentando a cada metro caminhado! Eu já tinha entendido que o local era outro templo sagrado. Quando chegamos, já adorei o local. Uma casa simpática, com um pátio e um barzinho onde os “aficionados” ficavam comendo umas tapas, bebendo e falando sobre o que mais gostavam! Me sentia no céu flamenco: bebendo um bom rioja, uma tapita de jamón serrano e conversando com senhorzinhos de 70 anos sobre a qualidade do cante do fulano, da voz do ciclano e do último concerto do guitarrista tal, que por sinal não era mais o mesmo… Sim, pois os cabales de Sevilla, são os críticos mais ferozes de todo universo flamenco!

Rioja vai, rioja vem e um sinal foi dado para que os presentes se acomodassem no salão principal onde as atuações acontecem. Don José subiu no palco com toda sua impronta de maestro do alto dos seus mais de 60 anos e se arrancó por Soleares. Interpretou um lindo solo de uns 12 minutos, pelo menos. Grande! Depois desse início triunfal, ele já podia fazer o que quisesse, já tinha “metido el público en el bolsillo”! Foram Tangos, Alegrías e outros bailes mais alegres. O público foi ao delírio. O mais interessante dessa noite, para mim, além da apresentação de Don José, foi uma das experiências estéticas mais fortes que já tive, além de ter sido a primeira vez que vi meu “objeto de estudo” bailar ao vivo. Como sempre acontece no final de uma apresentação “ tablao”, os artistas fizeram um fin de fiesta e alguns artistas que assistiam o show, também subiram no palco para confraternizar. Entre eles, seu filho Israel. Nem preciso dizer que pulei da cadeira para não perder nenhum detalhe! O que eu não imaginava é que eu teria uma surpreendente decepção!!!! Sim, nem eu acreditei! Senti como se tivesse levado um soco no estômago, enquanto via o rosto de Don José com uma expressão indescritível… Hoje, passado tanto tempo, entendo que o que eu senti foi o que chamamos de experiência estética, ou seja, essa relação entre um sujeito e um o objeto estética que se manifestação, inclusive, no corpo.


No mesmo ano, 2009, tive a oportunidade de acompanhar os cineastas Renê Goya e Pablo Chasseraux, que estavam produzindo um documentário sobre a obra do saudoso Bebeto Alves, cantor e compositor gaúcho que reinventou a milonga urbana do Rio Grande do Sul. O Bebeto estava fazendo uma espécie de investigação sobre o ritmo que revitalizou, fazendo uma viagem ao percurso da mesma. Foi então que meu amigo jerezano Jesús Pulpón, também cineasta, e eu, levamos o grupo para uma das cunas da música flamenca, ou seja, Jerez de La Frontera. Obviamente, não poderiam faltar visitas a algumas peñas como a Peña Los Cernícalos e a Tio José de Paula. Nessa inesquecível viagem, comecei a entender que cada peña guarda sua própria personalidade, algumas mais austeras, outras mais descontraídas e, cada uma, com sua beleza. Foi também, quando morava em Sevilla que visitei com meus colegas do programa de doutorado em Flamenco a Peña Flamenca Pies Plomo, ciceroneados pelo professor José Miguel Díaz Bañez. Nossa, realmente, são muitas memórias! E não parou por aí, a lista foi aumentando a cada viagem e, em cada local, a vivência foi única e “irrepetible”, como diríamos em Espanhol.


Também não posso deixar de registrar as experiências brasileiras como as peñas flamencas do Tablado Andaluz de Porto Alegre que acontecem em forma de espetáculos e gastronomia capitaneadas por Andrea Franco desde 1998 e das quais já participei inúmeras vezes. Também em Porto Alegre, participei das peñas promovidas pela escola Cadica Danças e Ritmos da Cadica Costa, a partir da sua linda sede inaugurada naquele ano. E, como não, a Peña Flamena Jaleo/El Patio, organizada por Andréa Del Puerto, Denise Baptista, Vanessa Longoni, Roberto Birindelli e por mim.


Mais recentemente, no espaço virtual, a Peña Flamenca Brasil, da qual a Deborah e a Viviane Castro Neves são sócias fundadoras e que foi o tema da nossa última tertúlia, e, porque não, o próprio El Club Del Duende e reúne aficionados (ou Flamenco Frikis!) de tantas partes do Brasil e flamencos brasileiros espalhados pelo mundo.


Espero que tenham gostado dessas memórias e se quiserem saber, compartilhar e refletir mais sobre o universo flamenco, venha para o El Club del Duende. Até a próxima, pessoal!


Um pouco mais sobre a história das peñas flamencas:


Segundo a profª Drª Lídia Atencia Doña, as peñas flamencas surgiram a partir das tertúlias que ͞eram organizadas em bares como a tertúlia do Bar del Apolinario de Granada ou a tertúlia do Bar da Calle Molina de Málaga, que deu origem à peña mais antiga da Espanha, a Peña Juan Breva em 1948. Em 1949, em Granada, o Platero Salamanca organizou uma tertúlia em seu atelier, onde surgiria a Peña La Platería. Em 1951, Los Palacios, província de Sevilla, Paco Cabrera e um grupo de amigos fundou a até hoje conhecida Tertúlia Flamenca El Pozo de Las Penas. Também se considera um antecessor das peñas flamencas, o Bar Pavón de Pepe Pinto e de La Niña de Los Peines de Sevilla.


São quatro os tipos de peñas classificados pela autora a partir da sua base social e origem: 1) Peñas de fora da Andaluzia -criadas como elemento identitário; 2) Peñas de Bairros Periféricos e de trabalhadores; 3) Peñas centrais - nas capitais e 4) Peñas de pueblos -interior.


Leia o artigo completo em: https://www.juntadeandalucia.es/cultura/flamenco/content/las-pe%C3%B1as-flamencas-como-correa-de-transmisi%C3%B3n-del-flamenco-y-s%C3%ADmbolo-identitario-del-pueblo


Glossário:


Albaicín: (Do ár. al-bayyāzīn, pl. de al-bayyāz.) . bairro construído em um morro ou encosta.

Aficionao: a grafia da pronúncia de aficionado conforme o sotaque andaluz.

Arrancou, arrancarse: dar início, no caso a expressão “ser arrancó por Soleares” quer dizer que o primeiro número do show foi uma Soleá.

Cante: como é conhecido o canto flamenco.

Cabales: expertos em flamenco, iniciados.

Chaquetón, El: nome artístico do cantaor José Antonio Díaz Fernández, homenageado pela peña madrileña.

Cuna: berço

Fin de fiesta: improvisações individuais, realizadas no final de uma apresentação de flamenco.

Función: apresentação.

Embrujo: feitiço em espanhol.

Grande: tipo de incentivo/elogio que o público dá a um artista flamenco durante uma atuação, o mesmo que jaleo.

Impronta: presença cênica.

Meter al público en el bolsillo: conquistar a audiência

Peña: associação de aficionados por um determinado tema.

Soleá, Soleares: um dos estilos de cante, baile e toque mais emblemáticos do Flamenco.

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